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June 28 Meu docee tu me encanta
com teu jeitinho sapeca
brincalhão querido
e meigo
e cabelinho cheiroso
e todo querido
e paciente comigo
e arruma minha cama
e me dá lanche
até descasca maçã June 26 Forte, trêmulomorrer de toque
de desejo
rasgar tua pele
provar tua carne
ofecer meu corpo
à tua boca
ao teu úmido
que me morre de toque
me mata de desejo
forte, trêmulo June 24 Até em junhoMe disseram que a chegada do inverno
quando começa o solstício
e a Terra sai dos eixo
pelo menos por aqui
esses solstício louco
dizem que eles deixam a gente diferente
recolhidos
fechados
conectados com a mãe-terra.
Eu fiquei diferente
meio zonza até
não sei se foi de ficar sabendo
dessas história de solstício
ou se foi desse calor infernal
que permanece
eternamente
nesse Forno Alegre. June 12 Qual é o som de Porto Alegre?
(texto rapidamente nervosamente compulsivamente produzido para a cadeira de Produção e Difusão de alguma coisa em rádio.)
Caminho no meio do parque, onde há o maior número de árvores, o local que mais se parece com mata fechada. Ouço o som dos pássaros que habitam o Parque Farroupilha: sabiás, bem-te-vis, pardais. Eles se destacam no meio dos demais sons, pois um grande número deles vive, ou sobrevive, nos poucos grandes conjuntos de árvores que sobraram. A sensação que tenho, entretanto, é que ao fundo, e sempre presente, há uma espécie de motor. Um som constantemente ligado, marcando presença, como uma máquina que nunca pára. É o som do trânsito, que, de dentro do parque, é ouvido como um eco distante. Já na beira da Redenção, e por toda a cidade, por todos os locais onde passo, o motor está mais marcante, intermitente. Para uma garota nascida e criada quase vinte anos no interior, os sons de Porto Alegre podem ser ainda mais intensos. Ainda mais se essa garota foi criada em Parai, uma cidade de seis mil habitantes. Eu vivi dormindo no silêncio, absoluto, exceto nas noites de vento e tempestade. As noites na capital são diferentes. Apesar de ter a sorte de dormir em um quarto de fundos, silencioso, é impossível não deixar de ouvir as freadas bruscas dos ônibus, ou os carros que passam em alta velocidade, mesmo que ao longe. O apartamento. É inacreditável, para uma pessoa que sempre morou em cima e em baixo de outras pessoas, a quantidade de sons que alguém que foi criado em uma casa distingue. No início era algo que me pregava sustos, além da constante sensação de falta de privacidade que eu sentia. Podia-se, e até hoje se pode, com a diferença de que agora estou habituada, ouvir o telefone dos vizinhos, as conversas deles perto das janelas... Quando algum morador abria a porta do apartamento ao lado, eu corria apavorada para a sala, pensando que era alguém abrindo a minha porta. Sem contar os sons dos passos lá em cima, da vassoura no chão, do fechar das janelas do andar superior... Um universo completamente diverso, novo, estranho. Mas o maior tremor na espinha causado pelos sons, sem sombra de dúvidas, é o som de sirene de ambulância. Foi por acaso, mas os dois apartamentos que morei até hoje ficam em ruas de importantes hospitais: O Hospital de Clínicas e o HPS. Morar na Venâncio Aires, logo nos primeiros tempos, era ficar imaginando, a cada nova ambulância, qual acidente grave havia acontecido daquela vez. No interior nunca se ouvia ambulância. E em uma cidade de seis mil habitantes, dificilmente ocorrem acidentes graves. É uma preocupação, e uma curiosidade, cada vez que eles acontecem. Imaginem quando se chega em uma cidade de um milhão de habitantes. Além das ambulâncias nervosas, histéricas, apressadas, urgentes, a Venâncio Aires tem ainda outra peculiaridade: o Colégio Militar. Em algumas manhãs, os vizinhos do quartel-cor-de-rosa acordam ao som de tambores, marchas, bandas, hinos. È uma invasão indígena, um golpe militar, a guerra chegando, tudo passa na cabeça até se acordar direito. Sem contar os treinamentos de incêndio que se realizam esporadicamente. Aí as garotas vindas do interior se descabelam com o carro dos bombeiros, a gritaria dos alunos saindo da escola, a sirene do colégio... Houve um momento marcante de minha vida no que diz respeito à identificação da paisagem sonora do local em que me encontro. Foi há pouco tempo atrás, quando estive no interior. Era madrugada e eu assistia um filme na televisão. O barulho de grilos era bem forte, e me surpreendi com a qualidade do som que o filme possuía. Que interessante, um filme que mostra os grilos tão bem, pensei. Foi quando trocou de cena, que percebi que o som dos grilos era do jardim, do lugar onde eu estava, e não da televisão. Um marco que me fez perceber que, após três anos morando em Porto Alegre, me tornei, pelo menos em termos auditivos, garota de cidade grande. Outros sons que se destacam em meu universo sonoro, e que marcam a nova paisagem sonora que conheci na capital: uma porta sendo aberta através do interfone. Aquele barulhinho que destrava a tranca, e permite a visita entrar. O tilintar, o enroscar e desenroscar das chaves sendo passadas em três portas diferentes até entrar em minha casa. A sineta do ônibus, quando o passageiro puxa a cordinha, e vai descer na próxima parada. As inúmeras pessoas falando sozinhas que vejo na rua. Loucos, varridos, doentes, pirados. Quanta gente que berra para amigos imaginários existe em Porto Alegre! Caminho pelo parque em busca do silêncio, ou dos grilos. Ah, como eu gostaria da ausência da máquina do trânsito, pelo menos por alguns momentos. Encontro os cachorros em grande número, as asas das pombas, o vendedor de refrigerante, o carro da polícia... Nada, nunca pára por aqui.
That's entertainmentAinda acordada sem janta sem banho com sono pensando o cinema
analisando musicais.
And all that jazz! June 08 À espera do correioQuando chega a caixa
pensa alívio
espera ansiosa.
Assina prancheta
do senhor da camisa amarela
e segura o peso pardo
pela primeria vez em suas mãos.
Corre escada acima
contemplando
fitas adesivas grossas
de correio.
Senta no sofá
com a caixa
uma surpresa
desconhecida
e começa a abrir
devagarinho.
Manso para sentir
por mais tempo
a sensação de estar prestes
a receber um presente.
Dentro da caixa tem
embrulho de papel
retira lento
leve
um livro
mágico!
se revela.
Grande
grosso
pesado.
Sente
a textura
folheia
as páginas
cheira
as folhas novas
novidade intacta
abrir esse livro
que é dela
esse livro que é dela
pela primeria vez.
É tocante
a vulnerabilidade
em preto e branco
das imagens
desse livro
imagens
do ser.
Encontra
um cartão
de uma pessoa
que não conhece
"uma lembrança"
para a gentil
e querida"
e o nome dela.
Conexão
carinho
gentileza
incrível afinidade.
Ela fica exultante
ainda confia
no ser.
June 02 Nas ondas, no arRádio
ao vivo
a voz
a adrenalina
música
microfone
estúdio
no ar
flutuando
indo
longe
nas ondas
do rádio.
June 01 Estive muito ocupadafazendo vinte e um anos pendurando quadros recheando bolos recebendo amigos pensando em comprar uma árvore ganhando flores caminhando todas as manhãs conhecendo bertolucci passeadno no mato comendo pinhão em brasa pulando taipas pensando em ir pra argentina ou pra goiás fazendo passaporte adiando londres assistindo ana maria braga comendo sal, muito sal! enfeitando minha casa assoprando velinhas de faíscas, essas que eu nunca tive trocando de anticoncepcional convencendo minha mãe a me dar um carro andando a pé atualizando um site amando meu menino.
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