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    June 28

    Meu doce

    e tu me encanta
    com teu jeitinho sapeca
    brincalhão  querido
    e meigo
    e cabelinho cheiroso
    e todo querido
    e paciente comigo
    e arruma minha cama
    e me dá lanche
    até descasca maçã
    June 26

    Forte, trêmulo

    morrer de toque
    de desejo
     
    rasgar tua pele
    provar tua carne
     
    ofecer meu corpo
    à tua boca
    ao teu úmido
     
    que me morre de toque
    me mata de desejo
     
    forte, trêmulo
    June 24

    Até em junho

    Me disseram que a chegada do inverno
    quando começa o solstício
    e a Terra sai dos eixo
    pelo menos por aqui
    esses solstício louco
    dizem que eles deixam a gente diferente
    recolhidos
    fechados
    conectados com a mãe-terra.
    Eu fiquei diferente
    meio zonza até
    não sei se foi de ficar sabendo
    dessas história de solstício
    ou se foi desse calor infernal
    que permanece
    eternamente
    nesse Forno Alegre.
    June 19

    Só nesse tipo de estádio...

     
    é que eu vou.
     Sente ao meu lado: estou no banco SW5ROC27!
    June 13

    TUDO FECHADO

    Quer dizer que eu sou obrigada a assistir o jogo da seleção, porra tchê?!

     

    June 12

    Qual é o som de Porto Alegre?

     

     

     

    (texto rapidamente nervosamente compulsivamente produzido para a cadeira de Produção e Difusão de alguma coisa em rádio.)

     

    Caminho no meio do parque, onde há o maior número de árvores, o local que mais se parece com mata fechada. Ouço o som dos pássaros que habitam o Parque Farroupilha: sabiás, bem-te-vis, pardais. Eles se destacam no meio dos demais sons, pois um grande número deles vive, ou sobrevive, nos poucos grandes conjuntos de árvores que sobraram.

    A sensação que tenho, entretanto, é que ao fundo, e sempre presente, há uma espécie de motor. Um som constantemente ligado, marcando presença, como uma máquina que nunca pára. É o som do trânsito, que, de dentro do parque, é ouvido como um eco distante. Já na beira da Redenção, e por toda a cidade, por todos os locais onde passo, o motor está mais marcante, intermitente.

    Para uma garota nascida e criada quase vinte anos no interior, os sons de Porto Alegre podem ser ainda mais intensos. Ainda mais se essa garota foi criada em Parai, uma cidade de seis mil habitantes. Eu vivi dormindo no silêncio, absoluto, exceto nas noites de vento e tempestade. As noites na capital são diferentes. Apesar de ter a sorte de dormir em um quarto de fundos, silencioso, é impossível não deixar de ouvir as freadas bruscas dos ônibus, ou os carros que passam em alta velocidade, mesmo que ao longe.

    O apartamento. É inacreditável, para uma pessoa que sempre morou em cima e em baixo de outras pessoas, a quantidade de sons que alguém que foi criado em uma casa distingue. No início era algo que me pregava sustos, além da constante sensação de falta de privacidade que eu sentia. Podia-se, e até hoje se pode, com a diferença de que agora estou habituada, ouvir o telefone dos vizinhos, as conversas deles perto das janelas... Quando algum morador abria a porta do apartamento ao lado, eu corria apavorada para a sala, pensando que era alguém abrindo a minha porta. Sem contar os sons dos passos lá em cima, da vassoura no chão, do fechar das janelas do andar superior... Um universo completamente diverso, novo, estranho.

    Mas o maior tremor na espinha causado pelos sons, sem sombra de dúvidas, é o som de sirene de ambulância.  Foi por acaso, mas os dois apartamentos que morei até hoje ficam em ruas de importantes hospitais: O Hospital de Clínicas e o HPS. Morar na Venâncio Aires, logo nos primeiros tempos, era ficar imaginando, a cada nova ambulância, qual acidente grave havia acontecido daquela vez. No interior nunca se ouvia ambulância. E em uma cidade de seis mil habitantes, dificilmente ocorrem acidentes graves. É uma preocupação, e uma curiosidade, cada vez que eles acontecem. Imaginem quando se chega em uma cidade de um milhão de habitantes.

    Além das ambulâncias nervosas, histéricas, apressadas, urgentes, a Venâncio Aires tem ainda outra peculiaridade: o Colégio Militar. Em algumas manhãs, os vizinhos do quartel-cor-de-rosa acordam ao som de tambores, marchas, bandas, hinos. È uma invasão indígena, um golpe militar, a guerra chegando, tudo passa na cabeça até se acordar direito. Sem contar os treinamentos de incêndio que se realizam esporadicamente. Aí as garotas vindas do interior se descabelam com o carro dos bombeiros, a gritaria dos alunos saindo da escola, a sirene do colégio...

    Houve um momento marcante de minha vida no que diz respeito à identificação da paisagem sonora do local em que me encontro. Foi há pouco tempo atrás, quando estive no interior. Era madrugada e eu assistia um filme na televisão. O barulho de grilos era bem forte, e me surpreendi com a qualidade do som que o filme possuía. Que interessante, um filme que mostra os grilos tão bem, pensei. Foi quando trocou de cena, que percebi que o som dos grilos era do jardim, do lugar onde eu estava, e não da televisão. Um marco que me fez perceber que, após três anos morando em Porto Alegre, me tornei, pelo menos em termos auditivos, garota de cidade grande.

    Outros sons que se destacam em meu universo sonoro, e que marcam a nova paisagem sonora que conheci na capital: uma porta sendo aberta através do interfone. Aquele barulhinho que destrava a tranca, e permite a visita entrar. O tilintar, o enroscar e desenroscar das chaves sendo passadas em três portas diferentes até entrar em minha casa. A sineta do ônibus, quando o passageiro puxa a cordinha, e vai descer na próxima parada. As inúmeras pessoas falando sozinhas que vejo na rua. Loucos, varridos, doentes, pirados. Quanta gente que berra para amigos imaginários existe em Porto Alegre!

    Caminho pelo parque em busca do silêncio, ou dos grilos. Ah, como eu gostaria da ausência da máquina do trânsito, pelo menos por alguns momentos. Encontro os cachorros em grande número, as asas das pombas, o vendedor de refrigerante, o carro da polícia... Nada, nunca pára por aqui.

     

    That's entertainment

    Ainda acordada

    sem janta

    sem banho

    com sono

    pensando o cinema

     

    analisando musicais.

     

    And all that jazz!

    June 08

    À espera do correio

    Quando chega a caixa
    pensa alívio
    espera ansiosa.
     
    Assina prancheta
    do senhor da camisa amarela
    e segura o peso pardo
    pela primeria vez em suas mãos.
     
    Corre escada acima
    contemplando
    fitas adesivas grossas
    de correio.
     
    Senta no sofá
    com a caixa
    uma surpresa
    desconhecida
    e começa a abrir
    devagarinho.
    Manso para sentir
    por mais tempo
    a sensação de estar prestes
    a receber um presente.
     
    Dentro da caixa tem
    embrulho de papel
    retira lento
    leve
    um livro
    mágico!
    se revela.
    Grande
    grosso
    pesado.
     
    Sente
    a textura
    folheia
    as páginas
    cheira
    as folhas novas
    novidade intacta
    abrir esse livro
    que é dela
    esse livro que é dela
    pela primeria vez.
     
    É tocante 
    a vulnerabilidade
    em preto e branco
    das imagens
    desse livro
    imagens
    do ser.
     
    Encontra
    um cartão
    de uma pessoa
    que não conhece
    "uma lembrança"
    para a gentil
    e querida"
    e o nome dela.
     
    Conexão
    carinho
    gentileza
    incrível afinidade.
    Ela fica exultante
    ainda confia
    no ser.
     
     
     
     
    June 02

    Nas ondas, no ar

    Rádio
    ao vivo
    a voz
    a adrenalina
    música
    microfone
    estúdio
    no ar
    flutuando
    indo
    longe
    nas ondas
    do rádio.
     
    June 01

    Estive muito ocupada

    fazendo vinte e um anos

    pendurando quadros

    recheando bolos

    recebendo amigos

    pensando em comprar uma árvore

    ganhando flores

    caminhando todas as manhãs

    conhecendo bertolucci

    passeadno no mato

    comendo pinhão em brasa

    pulando taipas

    pensando em ir pra argentina

    ou pra goiás

    fazendo passaporte

    adiando londres

    assistindo ana maria braga

    comendo sal, muito sal!

    enfeitando minha casa

    assoprando velinhas de faíscas, essas que eu nunca tive

    trocando de anticoncepcional

    convencendo minha mãe a me dar um carro

    andando a pé

    atualizando um site

    amando meu menino.